Para transformar os ficheiros PDF aqui disponibilizados em ficheiros WORD faça o download do documento para o seu computador e click no seguinte link - PDF 2 WORD - seguindo as instruções.

Domingo, 27 de Maio de 2012

Doença vascular cerebral e perturbações afins

A interrupção do afluxo de sangue ao cérebro pode ocasionar a morte das células cerebrais ou lesioná-las devido à falta de oxigénio. As células cerebrais também podem ser afectadas por uma hemorragia no cérebro ou à volta do mesmo. As alterações neurológicas resultantes denominam-se acidentes vasculares cerebrais porque afectam os vasos sanguíneos (vascular) e o encéfalo (cérebro).

A chegada insuficiente de sangue a determinadas partes do cérebro durante um período breve de tempo produz os acidentes isquémicos transitórios. Dado que se verifica um restabelecimento rápido do fluxo sanguíneo, o tecido cerebral não morre, como acontece no icto. O acidente isquémico transitório é, frequentemente, um aviso precoce de um icto.

A doença vascular cerebral é a causa mais frequente de incapacidade neurológica nos países ocidentais. Os factores que representam maior risco nas lesões vasculares do cérebro são a hipertensão e a aterosclerose (endurecimento das artérias por depósito de gordura nas suas paredes). A incidência da doença vascular cerebral diminuiu durante as últimas décadas graças à tomada de consciência das pessoas sobre a importância de controlar a tensão arterial alta e os valores elevados de colesterol.
O modo como os ictos ou os acidentes isquémicos transitórios afectam o organismo depende precisamente da área onde se interrompeu a circulação cerebral ou se produziu a hemorragia. Cada área do cérebro é irrigada por vasos sanguíneos específicos. Por exemplo, a obstrução de um vaso na área que controla os movimentos musculares da perna esquerda produz debilidade ou paralisia nessa perna. Se for afectada a área encarregada do tacto no braço direito, este perderá a sensação do tacto (sensibilidade táctil). A perda de funções é máxima imediatamente após um icto. No entanto, habitualmente recupera-se parte da função e, enquanto algumas células cerebrais morrem, outras estão somente lesionadas e podem ser recuperadas.

Há casos em que pode produzir-se um icto ou um acidente isquémico transitório apesar de uma circulação cerebral normal se o conteúdo de oxigénio no sangue for insuficiente. Isto pode acontecer quando uma pessoa é afectada por uma anemia grave, uma intoxicação por monóxido de carbono ou então sofre de uma perturbação que produz células sanguíneas anómalas ou uma coagulação anormal, como a leucemia ou a policitemia.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Instrumentos Presentes nas Estações Meteorológicas Clássicas - Termómetro de temperatura máxima e mínima


Termómetro de temperatura máxima
É um termómetro de mercúrio que tem um estrangulamento do tubo capilar entre o reservatório e o início da escala, permitindo a passagem forçada do mercúrio para o lado da escala quando a temperatura sobe, impedindo o seu regresso natural ao reservatório, quando a temperatura baixa. A coluna de mercúrio no tubo capilar fica retida e a sua extremidade indica a temperatura máxima num determinado período.

Termómetro de temperatura mínima
O termómetro de mínima utilizado é o de álcool tendo no seio do líquido transparente um indicador de vidro opaco e escuro (estilete), com cerca de 1.5 cm de comprimento. Quando a temperatura desce o estilete é arrastado por aderência ao menisco da coluna líquida, devido às forças de tensão superficial; logo que a temperatura começa a subir o estilete fica retido na posição correspondente ao valor mais baixo atingido pelo extremo da coluna, devido ao ligeiro atrito do estilete nas paredes do tubo capilar. Para preparar este termómetro inclina-se, com o respetivo reservatório para cima, até que a extremidade do estilete toque no menisco da coluna líquida, instalando-o de seguida no abrigo horizontalmente.

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Rede Nacional de Áreas Protegidas - RNAP

A classificação de uma Área Protegida (AP) visa conceder-lhe um estatuto legal de protecção adequado à manutenção da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas e do património geológico, bem como à valorização da paisagem

O processo de criação de Áreas Protegidas é actualmente regulado pelo Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho. A classificação das AP de âmbito nacional pode ser proposta pela autoridade nacional (ICNB) ou por quaisquer entidades públicas ou privadas; a apreciação técnica pertence ao ICNB, sendo a classificação decidida pela tutela. No caso das AP de âmbito regional ou local a classificação pode ser feita por municípios ou associações de municípios, atendendo às condições e aos termos previstos no artigo 15.º do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho.
As tipologias existentes são Parque nacional, Parque natural, Reserva natural, Paisagem protegida e Monumento natural; com excepção do “Parque Nacional” as AP de âmbito regional ou local podem adoptar qualquer das tipologias atrás referidas, devendo as mesmas ser acompanhadas da designação “regional” ou “local”, consoante o caso (“regional” quando esteja envolvido mais do que um município, “local” quando se trate apenas de uma autarquia).

O Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de Julho, prevê ainda a possibilidade de criação de Áreas Protegidas de estatuto privado (APP), a pedido do respectivo proprietário; o processo de candidatura, a enviar ao ICNB, está regulado pela Portaria n.º 1181/2009, de 7 de Outubro, envolvendo o preenchimento de um Formulário, disponível num canal deste site.

As AP de âmbito nacional e as APP pertencem automaticamente à RNAP (Rede Nacional de Áreas Protegidas); no caso das AP de âmbito regional ou local a integração ou exclusão na RNAP depende de avaliação da autoridade nacional.

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Cientistas ensinaram animais a pedir açúcar usando só a força da mente

Em apenas dez dias, os ratos e ratinhos usados na experiência conduzida por neurocientistas - da Fundação Champalimaud (Portugal) e da Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA) - aprenderam a "pedir" açúcar sem mover um músculo do corpo. Para isso, recorreram apenas a impulsos eléctricos do cérebro que tinham como feedback um determinado som.

Os resultados da experiência, publicados na revista Nature, revelam um cérebro mais flexível do que se pensava e podem ser um importante contributo para o desenvolvimento de próteses movidas com "a força da mente" para pessoas com lesões na medula, amputações ou outras limitações na mobilidade.

O trabalho em laboratório permitiu demonstrar não só que o cérebro é capaz de aprender rapidamente regras arbitrárias, mas também que a plasticidade [a capacidade de adaptação do cérebro] presente neste processo intencional é idêntica à que encontramos quando resolvemos uma tarefa física como andar de bicicleta.

Até agora, a chamada interface cérebro-máquina (IMC) procurou provocar um movimento numa prótese imitando os circuitos eléctricos que são normalmente usados no gesto que se quer reproduzir, seja ele mover um braço ou uma perna. As experiências realizadas mostraram o sucesso desta tecnologia, mas também revelaram algumas limitações.

Já está provado que é possível "imitar" os impulsos neuronais e conseguir movimento numa prótese. Para isso, a actividade do cérebro é medida através da introdução de eléctrodos (fios da espessura de um cabelo) no cérebro, usando-se um chip que pode estar ligado a um computador ou a uma prótese (um braço, por exemplo) que "decifra" a ordem que está a ser dada.

Esta imitação da actividade neuronal, contudo, tem de ser feita caso a caso (cada um de nós tem impulsos neuronais diferentes para mexer o braço) e, no processo, perde-se alguma eficácia no movimento. Quando usamos uma prótese que tenta imitar o que o cérebro normalmente faz para ordenar esse movimento, a performance de uma tarefa normal cai para 60 ou 70%.

Rui Costa, investigador principal do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, e José Carmena, co-director do centro de engenharia neural e próteses da Universidade de Berkeley, admitem que o que foi conseguido até agora já é muito bom, mas acreditam ter encontrado outro caminho no cérebro para conseguir mover uma prótese com 95% de acuidade. Como? "Mudámos as regras do jogo e, em vez de tentarmos imitar o que se passa normalmente, ensinámos o cérebro a fazer algo como se fosse uma coisa nova, arbitrária".

Na verdade, a experiência (ainda) não se fez com uma pessoa e uma prótese. O que os cientistas para já demonstraram, e que descrevem no artigo publicado ontem online na Nature, foi que os ratos e ratinhos usados na experiência aprenderam rapidamente uma regra arbitrária para obter o que queriam sem se mexerem, só com "a força da mente".

"Usámos ratos e ratinhos que estavam a controlar um computador que produzia um som. Criámos uma regra arbitrária: a actividade destes neurónios significa um som agudo e a destes um som grave. Se conseguissem a actividade cerebral capaz de dar um feedback de um som agudo, tinham como recompensa uma solução com açúcar, e se conseguissem um som grave tinham comida calórica", explica Rui Costa, entusiasmado com os resultados porque "rapidamente os animais aprenderam a regra".

"Logo no primeiro dia, os ratos começaram a perceber. Em três, quatro dias, estavam bons na tarefa. E em dez dias, estavam com 100% de performance", nota Rui Costa. "O que foi mais maravilhoso foi ver que o animal começou a aprender a controlar aquele som só com a mente. E, ao fim de dez dias, não só está excelente na tarefa como deixou de se mexer e controla só com a actividade cerebral o computador", conta o cientista.

A experiência permitiu perceber que "as áreas do cérebro [o córtex motor] e o tipo de plasticidade [presente nos gânglios da base, na região do estriado] envolvidas na aprendizagem desta regra abstracta são as mesmas que usamos para a aprendizagem motora, física. Ou seja, usamos os mesmos circuitos e mecanismos no cérebro para andar de bicicleta e para aprender algo abstracto e mental, como fazer contas.

"Mas será que ratos percebem mesmo que aquela actividade cerebral produz aquele som e aquela recompensa?", era a próxima pergunta dos investigadores. Para a resposta, nova experiência. "Fizemos mais testes que queriam demonstrar o conhecimento e intencionalidade da acção. Por exemplo, demos aos animais muito açúcar (que era a recompensa do feedback com som agudo) antes de realizar a experiência, e o resultado foi que quando começaram a sessão eles só faziam o som grave (que tinha como recompensa comida calórica). Fizemos ao contrário e eles só pediam o açúcar. Mais ainda, decidimos que para terem a bebida tinham de parar a actividade cerebral que produzia estes sons. E eles paravam".

Conclusão: "Os animais tinham conhecimento de que o controlo do som agudo servia para obter sacarose e o som grave para comida. Como se estivesse num restaurante e mandasse vir a comida que lhe apetecesse só com a actividade cerebral. O que é incrível".

Há, no entanto, uma nota importante a lembrar dos resultados desta experiência: parece ser essencial dar feedback da actividade neuronal. "Quando nós cortávamos o feedback, os sons, eles não conseguiam aprender".

Transferir este conhecimento para uma possível solução de uma limitação física de uma pessoa é a grande porta que se abre agora. "Na limitação física, uma pessoa que está paralisada pode utilizar a actividade neuronal para escrever directamente no computador desde que se definam as regras: a actividade nesta área é a letra A, nesta outra área é a letra B... e a pessoa rapidamente aprende", acredita Rui Costa.

O investigador admite também ser possível usar este caminho para outro tipo de tarefas que não são motoras. Por exemplo, para fazer uma chamada telefónica.

Domingo, 13 de Maio de 2012

Espasmos infantis e convulsões febris

Nas crianças ocorrem dois tipos de convulsões quase exclusivamente. Os espasmos infantis (crises saudáveis) caracterizam-se por a criança, que se encontra deitada de costas, de repente fazer uma flexão brusca dos braços, flectir para diante o pescoço e o tronco e estender as pernas. As crises duram apenas alguns segundos, mas podem repetir-se muitas vezes ao dia. Geralmente, ocorrem em crianças com menos de 3 anos e, mais tarde, muitas delas podem evoluir tipicamente para outras formas convulsivas. A maioria das crianças com espasmos infantis tem uma deterioração mental associada ou atrasos do desenvolvimento neurológico; o atraso mental costuma persistir na idade adulta. As convulsões dificilmente se controlam com fármacos antiepilépticos.

As convulsões febris são consequência da febre em crianças entre 3 meses e 5 anos de idade. Costuma afectar 4 % de todas as crianças e tendem a ocorrer em famílias. De um modo geral, uma criança que tem uma convulsão febril terá só uma, e a maioria destas convulsões dura menos de 15 minutos. As crianças que tiveram convulsões febris são um pouco mais propensas a desenvolver mais tarde epilepsia.

Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

Instrumentos Presentes nas Estações Meteorológicas Clássicas - Termo-Higrógrafo


Instrumento para registo da temperatura e da humidade do ar.
Utiliza como sensores, para a temperatura, uma lâmina metálica especial, e para a humidade, um feixe de cabelos.

Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Estudo prevê extinção de cerca de 900 espécies de aves até 2100

Entre 600 a 900 espécies de aves, especialmente as tropicais como os colibris, poderão extinguir-se até 2100 se as temperaturas médias do planeta aumentarem 3.5ºC, prevê um estudo científico publicado na revista Biological Conservation Journal.

O estudo, coordenado por Cagan Sekercioglu – biólogo na Universidade do Utah – concluiu que as aves mais afectadas serão aquelas que vivem em zonas montanhosas tropicais, nas florestas perto da costa, aquelas que já ocupam um território muito limitado e as que não têm acesso a territórios com altitudes mais elevadas.

"Em aguns modelos, a perda de habitat pode aumentar as extinções causadas pelas alterações climáticas em 50%", escrevem os autores no artigo.

Os investigadores estimam que 89% das extinções vão acontecer nos trópicos.

“A percepção das pessoas é que a maioria das aves é migradora e que, por isso, as alterações climáticas não são um problema. Mas a verdade é que a maioria das espécies do planeta são extremamente sedentárias”, disse Sekercioglu, citado pela BBC.

Para sobreviver a temperaturas mais elevadas, as aves terão de se adaptar fisiologicamente e escapar para zonas de floresta húmida mais elevadas. Estas vão recuando para o cimo das montanhas, onde têm de competir com povoações humanas, notou o investigador.

“As espécies que vivem na zona costeira também são muito vulneráveis. As florestas costeiras são muito sensíveis à salinidade e podem ser muito afectadas por tempestades, eventos que se prevê aumentarem de intensidade e frequência”, acrescentou Sekercioglu.

“Já sabemos que muitas espécies de aves tropicais não são muito boas a dispersar para outros territórios. Por isso, este será um grande problema no futuro se os climas adequados para elas se deslocarem centenas de quilómetros. Algumas aves não serão capazes de mudar os seus territórios suficientemente rápido”, notou Mike Crosby, da federação Birdlife International para a Ásia.

Os autores do estudo acreditam que "as áreas protegidas serão mais importantes do que nunca, mas devem ser desenhadas tendo em consideração as alterações climáticas". Ainda assim, salientam, no espaço de um século, 92% das áreas protegidas actuais correm o risco de se tornarem climaticamente desadequadas. Na Europa também.

Num artigo publicado em Abril de 2011 na revista Ecology Letters, o investigador Miguel Araújo – da Universidade de Évora e do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid e um dos autores do estudo – salientou que no final do século, se os modelos climáticos se vierem a verificar, mais de metade das espécies que ocorrem nas áreas protegidas europeias encontrar-se-ão numa situação de stress climático. De acordo com o especialista, entre as espécies mais vulneráveis às alterações do clima estão “as espécies tolerantes a ambientes frios” e as “menos tolerantes a períodos de seca prolongada, as espécies de mobilidade reduzida, espécies especialistas no uso de determinados recursos ecológicos ou muito dependente de interacções com outras espécies, espécies com baixa fertilidade”.

Para Sekercioglu, vai tornar-se claro que as novas áreas protegidas do planeta terão de ser definidas “tendo em conta territórios com maior altitude e deixando mais espaço para as espécies ameaçadas se moverem para maiores altitudes”.

“Temos de nos preparar para começar a medir as temperaturas, a precipitação e monitorizar o que se passa com os animais nas áreas protegidas, para que consigamos dar uma resposta adequada”, comentou Crosby.

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

As formigas agricultoras

Se pensa que o Homem descobriu a agricultura, está enganado! Há mais de 50 milhões de anos que pequenas formigas desenvolvem culturas de fungos, como forma de garantir alimento, numa relação de contornos verdadeiramente impressionantes.

A descoberta da agricultura pelo homem terá acontecido há mais de 10 000 anos. Ao permitir o controlo das fontes de alimento, a agricultura lançou as bases para o desenvolvimento das civilizações. Mas apesar desta descoberta ter sido um triunfo incontestável, na realidade o homem não foi o primeiro ser a pôr em prática técnicas agrícolas.

Há cerca de 50 milhões de anos atrás, não muito depois do desaparecimento dos dinossauros, e muito antes do homem se ter diferenciado dos chimpanzés, algures na bacia do Amazonas, um grupo de humildes formigas descobriu uma forma de assegurar alimento – tornaram-se agricultoras, cultivando fungos no interior dos formigueiros para a sua alimentação. Esta alteração do modo de vida terá ocorrido apenas num grupo restrito de formigas, já que a maioria das actuais 10 000 espécies mantém os seus hábitos de predador. Contudo, a razão porque tal terá acontecido permanece indeterminada. É provável que a competição ou alguma alteração no ambiente tenha “empurrado” este grupo de formigas para uma modificação drástica dos seus hábitos, alteração essa que terá sido vantajosa, pois só assim se explica que actualmente existam cerca de 200 espécies agricultoras. Todas estas espécies pertencem à tribo Attini, e distribuem-se fundamentalmente pelas florestas tropicais da América Central e do Sul. Nesta categoria encontram-se géneros considerados “inferiores” ou mais primitivos e géneros “superiores”, dos quais fazem parte os géneros Atta e Acromyrmex, que correspondem às conhecidas “formigas cortadeiras”, extremamente especializadas.

Mas esta relação está longe de ser uma exploração; pelo contrário, ambos os intervenientes souberam tirar dela o melhor proveito. Na ausência de enzimas que possibilitam a degradação da matéria vegetal e de insectos mortos, estas formigas obtêm os nutrientes de que necessitam através dos fungos. Em contrapartida, eles ganham um local no solo onde se podem desenvolver, protegidos pelas formigas de predadores e parasitas, e conseguem obter mais material da área circundante do que se estivessem por sua conta, material esse que já vem preparado pelas enzimas produzidas pelos insectos. Os fungos utilizam esta biomassa preparada para crescerem e acumulam tantos nutrientes que as extremidades das suas hifas incham com açúcares e proteínas, que depois os insectos podem “morder”. Para além disso, na preparação do substrato para as suas culturas, as formigas conseguem atenuar os efeitos dos fungicidas presentes nas plantas e desenvolveram a capacidade de escolher as folhas com menor conteúdo destes compostos. Esta aptidão é retribuída pelos fungos, já que eles conseguem degradar as substâncias insecticidas presentes no alimento trazido pelas formigas. A horta de fungos é, assim, uma forma eficiente de transformar material indigestível em alimento utilizável pela colónia de formigas.

Contudo, esta relação simbiótica assume contornos distintos, dependendo do tipo de “agricultores” envolvidos, nomeadamente do tipo de material que recolhem como substrato para o crescimento dos seus fungos. Assim, as formigas consideradas “inferiores” constituem colónias relativamente pequenas e colhem uma grande variedade de alimentos que colocam à disposição dos seus fungos, esperando que estes os degradem, desde ervas, folhas caídas, excrementos de insectos e mesmo os seus cadáveres. Contrariamente, as formigas “superiores” tendem a usar apenas material vegetal e as “cortadeiras” utilizam apenas material retirado de plantas vivas.

Estas últimas possuem uma complexidade social espantosa. Os seus formigueiros são enormes estruturas elaboradas, com centenas de câmaras de diferentes tamanhos, por vezes a mais de três metros de profundidade, onde chegam a existir mais de 8 milhões de trabalhadoras, frequentemente pertencentes a diferentes castas, especializadas em tarefas distintas. À superfície, a área envolvente do formigueiro é mantida escrupulosamente limpa pelas trabalhadoras. As colectoras de material vegetal, detentoras de uma força surpreendente, cortam as folhas e carregam-nas até ao formigueiro. Enquanto cortam, elas bebem a seiva que se liberta das margens cortadas, o que constitui uma importante fonte de energia para estes indivíduos. Já no formigueiro, pela acção de diferentes tipos formigas, as folhas são cortadas em fracções cada vez mais pequenas, mastigadas e encharcadas com enzimas, transformando-se numa pasta mole, que é posteriormente espalhada sobre o substrato dos fungos. Existem, ainda, as formigas colectoras de detritos, que os recolhem e transportam até câmaras específicas, situadas a grandes profundidades.

Os efeitos das “formigas cortadeiras” são, por vezes, devastadores. Uma manada de elefantes dificilmente pode causar tanto distúrbio como a passagem das trabalhadoras formigas, que procuram matéria verde para alimentarem as suas hortas, desfolhando em pouco tempo qualquer planta que apareça no seu caminho. Por isso são responsáveis por enormes prejuízos na agricultura, nos países em que atingem grandes densidades. Contudo, para responder a estes ataques das formigas, as plantas desenvolveram um arsenal de substâncias que incorporaram nas suas folhas, incluindo insecticidas e fungicidas que, ao aniquilarem os fungos, afectam indirectamente os insectos. Como resposta, as formigas adquiriram, ao longo da evolução, a capacidade de detectar muitos destes compostos, evitando utilizar folhas de plantas que os produzam. É por este motivo que as plantas nativas não são tão molestadas quanto as introduzidas, que não tiveram tempo de desenvolver defesas. Por isso estas formigas tendem a evitar as florestas húmidas virgens e a preferir zonas já perturbadas.

Apesar do seu impacto devastador, verificou-se que as formigas, ao tratarem cuidadosamente das suas culturas de fungos, desempenham funções ecológicas muito importantes. Elas estimulam o crescimento de novas plantas, promovem a degradação do material vegetal e o enriquecimento e arejamento do solo. Embora possam espalhar a devastação à superfície, elas criam um verdadeiro Éden para os fungos, em autênticos jardins subterrâneos.

Mas a complexidade da simbiose entre as formigas agricultoras e os seus fungos, adquirida durante uma extensa história evolutiva, é bem maior do que inicialmente se pensou. Muito antes dos humanos, as formigas começaram a tomar medidas para optimizarem as condições de crescimento das suas culturas. Por exemplo, os investigadores descobriram que certas áreas da cutícula das formigas se encontram revestidas por uma substância de aspecto poeirento, que estudos micromorfológicos e bioquímicos revelaram ser massas filamentosas de bactérias do grupo dos Actinomicetes, especialmente do género Streptomyces, produtoras de metabolitos secundários, muitos dos quais com propriedades antibacterianas e antifúngicas específicas. À luz das propriedades bioquímicas únicas deste grupo, foi proposto que as bactérias associadas às formigas seriam responsáveis pela supressão do desenvolvimento de agentes patogénicos potencialmente devastadores, nomeadamente outras espécies de fungos, parasitas, que invadem as plantações das formigas. Assim, a utilização de antibióticos tem sido uma constante desde que as formigas iniciaram as suas “actividades agrícolas”

Porém, as descobertas não se ficam por aqui. Também elas foram pioneiras na utilização de técnicas de fertilização, já que realizam adubações à base de folhas misturadas com excrementos, de forma a maximizar o crescimento das culturas. Para além disso, as formigas realizam autênticas mondas quando fungos indesejáveis aparecem, eliminando-os com as suas mandíbulas.

Os cientistas conhecem há mais de um século estas formigas que cultivam massas de fungos para alimento, mas enquanto as formigas foram estudadas, o mesmo não aconteceu com os fungos. Por não desenvolverem corpos frutíferos (estruturas da reprodução sexuada) nos formigueiros, foi difícil fazer a classificação taxonómica dos fungos e determinar se poderiam viver no exterior, na ausência da relação simbiótica. No entanto, uma equipa de cientistas conseguiu analisar o ADN de mais de 500 tipos de fungos encontrados em formigueiros, tornando possível relacionar os fungos cultivados pelas formigas e alguns dos cogumelos que apareciam nas redondezas. Os cientistas descobriram que a maioria dos fungos pertence à família Lepiotaceae, escolha que não terá sido arbitrária, já que estes são especializados na decomposição de detritos vegetais.

A partir do momento em que os fungos iniciaram a relação simbiótica deixaram de se reproduzir sexuadamente e acabaram por depender das formigas para a sua dispersão. Reproduzem-se de forma vegetativa, através de rebentos, que não são mais do que “clones” do fungo original. Pelo facto de se ter observado que as novas rainhas destes formigueiros, ao saírem para acasalar e formar novas colónias, transportam fungos nas suas peças bucais, durante muito tempo pensou-se que esta seria a forma de todas as hortas começarem, o que significaria a existência de linhagens de fungos com milhares de anos. No entanto, investigações genéticas demonstraram que, apesar das formigas de uma mesma colónia só cultivarem um tipo de fungo, outras colónias da mesma espécie utilizam outros tipos de fungos, o que implica que, de vez em quando, as formigas saiam dos formigueiros para obter fungos livres na natureza, de forma a refrescarem os seus stocks e, provavelmente, obterem uma maior variedade alimentar. Por outro lado, algumas colónias de diferentes espécies cultivam exactamente os mesmos tipos de fungos. Por tudo isto considera-se, actualmente, que as formigas agricultoras “domesticaram” fungos várias vezes ao longo da sua evolução.

Em situações de desespero, resultantes de factores ambientais (como uma inundação) ou do ataque de doenças ou parasitas que “limpam” estas hortas, as formigas podem tornar-se mais beligerantes, pois estes condicionalismos têm efeitos devastadores, podendo condenar à indigência toda a colónia. Nas situações de crise as formigas ou morrem ou têm de procurar novos fungos para cultivarem. Esta procura pode ser feita na natureza ou mesmo no formigueiro das suas vizinhas. Já foram observadas operações organizadas de “furto”, em que as formigas de uma colónia tomam de assalto outro formigueiro para obterem fungos, forçando-o a sair, e chegando mesmo a fazer “prisioneiros”, que põem a trabalhar.

Os cientistas sempre se impressionaram com a harmonia da relação existente entre as formigas e os seus parceiros, mas apenas agora estão a desvendar as nuances que esta história evolutiva e de simbiose tem por trás. Eles estão a aplicar ferramentas moleculares para reconstruir a história genealógica da simbiose, determinando a sua origem e como terá progredido ao longo dos milhões de anos da sua existência. Esta interdependência assume um carácter tão forte que virtualmente controla o ecossistema de muitas regiões neotropicais. Existem cientistas que consideram esta relação como um dos maiores passos da evolução animal, colocando-a a par da conquista do meio terrestre. Mas estas descobertas são importantes ainda noutro sentido. O facto desta simbiose ter despertado tanto interesse constitui um motivo para que os fungos sejam estudados. Este tem sido um grupo bastante desprezado, apesar do seu papel crucial no funcionamento de todos os ecossistemas.

O mais antigo agricultor da Terra tem seis patas e pode ser capaz de nos dar algumas ideias de como praticar agricultura sem causar danos ambientais, pois é isto que tem feito durante muitos milhões de anos. As formigas poderão fornecer-nos algumas pistas sobre a forma de manter as mesmas técnicas agrícolas por tão longo tempo. Por exemplo, uma das lições que podemos reter prende-se com a necessidade de manutenção das diferentes variedades de plantas de cultivo em meio natural. Da mesma forma que as formigas saem para trazer novos fungos se uma doença devastar as suas culturas, os agricultores também deveriam poder ir buscar à natureza as plantas originais após o ataque de doenças. Por tudo isto, o que quer que nós tenhamos aperfeiçoado, em termos de práticas agrícolas, terá sido inquestionavelmente melhor realizado pelas formigas agricultoras, ao longo de 50 milhões de anos.

Maria Carlos Reis

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Hematomas intracranianos

Os hematomas intracranianos são acumulações de sangue entre o cérebro e crânio.

Os hematomas intracranianos podem ser consequência de um traumatismo ou de um icto. É habitual que os hematomas intracranianos associados a um traumatismo se formem no revestimento externo do cérebro (hematoma subdural) ou entre o revestimento externo e o crânio (hematoma epidural). Ambos os tipos podem, em regra, ser revelados através de uma tomografia axial computadorizada (TAC) ou de uma ressonância magnética (RM). A maioria dos hematomas são de desenvolvimento rápido e produzem sintomas em minutos. Os hematomas crónicos, mais frequentes nas pessoas de idade, são de progressão lenta e produzem sintomas somente ao fim de horas ou de dias.

Os hematomas grandes comprimem o cérebro, causam edema e finalmente destroem o tecido cerebral. Podem também ocasionar uma hiernação da parte superior do cérebro ou do tronco cerebral.

Uma pessoa com um hematoma intracranino pode perder a consciência, entrar em coma, ficar paralisado de um ou de ambos os lados do corpo, experimentar dificuldades respiratórias e cardíacas ou mesmo morrer. Os hematomas podem também ocasionar confusão e perda de memória, especialmente nas pessoas de idade avançada.

Um hematoma epidural é consequência da hemorragia de uma artéria que se encontra entre as meninges (as membranas que revestem e protegem o cérebro) e o crânio. A maioria dos hematomas epidurais ocorre quando uma fractura do crânio rompe uma artéria. Dado que o sangue tem mais pressão nas artérias do que nas veias, sai com mais força e rapidez das artérias. Às vezes, os sintomas são de início imediato, geralmente em forma de dor de cabeça intensa, mas também podem demorar várias horas. Às vezes, a dor de cabeça cede para reaparecer com mais intensidade ao fim de algumas horas; é possível que então se acompanhe de um estado progressivo caracterizado por confusão, sonolência, paralisia, colapso e coma profundo.

O diagnóstico precoce é fundamental e geralmente estabelece-se através de uma TAC urgente. O tratamento dos hematomas epidurais instaura-se enquanto se estabelece o diagnóstico. Para eliminar a acumulação de sangue trepana-se o crânio e o cirurgião procura a origem da hemorragia para a controlar.

Os hematomas subdurais são consequência do sangramento das veias que se encontram à volta do cérebro. O início do derrame pode ser súbito e consecutivo a um traumatismo craniano grave ou mais lento quando se trata de uma lesão menos grave. Os hematomas subdurais de desenvolvimento lento são mais frequentes nas pessoas de idade avançada, porque as suas veias são frágeis, e nos alcoólicos, porque às vezes não tomam consciência de pancadas leves ou moderadas na cabeça. Em ambas as situações a lesão inicial pode parecer ligeira e os sintomas podem passar inadvertidos durante várias semanas. No entanto, uma TAC ou uma RM podem detectar o sangue acumulado. Um hematoma subdural pode aumentar o tamanho da cabeça de um bebé porque o crânio é mole e maleável; os médicos costumam drenar o hematoma cirurgicamente por razões estéticas.

Nos adultos, os hematomas subdurais pequenos costumam ser reabsorvidos espontaneamente; a drenagem cirúrgica está habitualmente indicada nos grandes hematomas subdurais que causam sintomas neurológicos. As indicações para proceder a uma drenagem são a dor de cabeça persistente, os enjoos que aparecem e desaparecem, a confusão, as alterações na memória e uma paralisia ligeira no lado oposto do corpo.

Lesões cerebrais nas áreas específicas

As lesões na camada superior do cérebro (córtex cerebral) habitualmente produzem uma deterioração da capacidade da pessoa para pensar, controlar emoções e comportar-se com normalidade. Dado que, geralmente, certas áreas específicas do córtex cerebral regem determinados padrões específicos de comportamento, a localização exacta da lesão e a amplitude da área afectada determinarão o tipo de deterioração. 

Lesão do lobo frontal

Os lobos frontais do córtex cerebral controlam, sobretudo, as actividades motoras aprendidas (por exemplo, escrever, tocar um instrumento musical ou atar os sapatos). Também controlam a expressão da cara e os gestos expressivos. Certas áreas dos lobos frontais regulam as actividades motoras aprendidas do lado oposto do corpo.

Os efeitos de uma lesão do lobo frontal sobre o comportamento variam em função do tamanho e da localização do defeito físico. As pequenas lesões não costumam causar alterações notórias no comportamento se só afectam um lado do cérebro, embora, por vezes, provoquem convulsões. As grandes lesões da parte posterior dos lobos frontais podem causar apatia, falta de atenção, indiferença e, às vezes, incontinência. As pessoas que apresentam grandes alterações mais próximas da parte anterior ou lateral dos lobos frontais tendem a distrair-se facilmente, sentem-se eufóricas sem motivo aparente, são argumentativas, vulgares e rudes; além disso, pode acontecer que não tenham consciência das consequências do seu comportamento.

Lesão do lobo parietal

Os lobos parietais do córtex cerebral são os encarregados de combinar as impressões referentes à textura e ao peso das coisas e de convertê-la em percepções gerais. A capacidade para as matemáticas e para a linguagem saem de alguma parte desta área, mas mais especificamente de zonas adjacentes aos lobos temporais. Os lobos parietais também contribuem para que a pessoa possa orientar-se no espaço e aperceber-se da posição das partes do seu corpo.

Um pequeno défice na parte anterior dos lobos parietais causa entorpecimento na parte oposta do corpo. As pessoas com lesões maiores podem perder a capacidade para executar tarefas sequenciais, como abotoar um botão (uma perturbação denominada apraxia) e ter consciência do sentido direita-esquerda. Um grande défice pode afectar a capacidade da pessoa para reconhecer as partes do corpo ou o espaço à volta dela ou pode interferir inclusive com a memória de formas que antes conhecia bem, como relógios ou cubos.

Em consequência, uma lesão súbita de algumas partes do lobo parietal pode fazer com que as pessoas ignorem a natureza grave da sua perturbação e se tornem negligentes ou inclusive neguem (não reconheçam) a paralisia que afecta o lado do corpo oposto à lesão cerebral. Podem apresentar um estado de confusão ou de delírio e ser incapazes de se vestir ou de efectuar actividades correntes.

Lesão do lobo temporal

Os lobos temporais processam os factos imediatos na memória recente e na memória remota. Fazem com que possam ser interpretados os sons e as imagens, armazenam os factos em forma de memória e evocam os já memorizados e geram as vias emocionais.

Uma lesão no lobo temporal direito tende a afectar a memória dos sons e das formas. Uma lesão no lobo temporal esquerdo interfere de maneira drástica com a compreensão da linguagem e é típico que impeça que a pessoa se exprima através dela. As pessoas com uma lesão no lobo temporal direito não dominante podem experimentar alterações de personalidade, como perda do sentido de humor, um grau inabitual de religiosidade, obsessões e perda da líbido.

Perturbações causadas por traumatismo craniano

Algumas perturbações específicas produzidas por um traumatismo craniano são a epilepsia pós-traumática, a afasia, a apraxia, a agnosia e a amnésia.

Sábado, 28 de Abril de 2012

Epilepsia pós-traumática Epilepsia pós-traumática

A epilepsia pós-traumática é uma perturbação caracterizada por convulsões que se manifestam algum tempo depois de ter sofrido um traumatismo cerebral por um impacte na cabeça.

As convulsões são uma resposta a descargas eléctricas anormais no cérebro.Desenvolvem-se em 10 % das pessoas que têm um traumatismo craniano grave sem ferida penetrante no cérebro e em 40 % das que apresentam uma ferida penetrante.

É possível que as convulsões só se manifestem vários anos depois da lesão. Muitas vezes, os sintomas resultantes dependem da zona em que se originam as convulsões no cérebro. Os medicamentos anticonvulsivantes, como a fenitoína, a carbamazepina ou o valproato, geralmente podem controlar a epilepsia pós-traumática. De facto, alguns médicos prescrevem esses fármacos após um traumatismo craniano grave para prevenir as convulsões, ainda que muitos especialistas não estejam de acordo com esta posição. Muitas vezes o tratamento mantém-se durante vários anos ou de forma indefinida se as convulsões aparecerem.

Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Cavalheiros cientistas

Quando (quase) ainda não havia profissionais

Ricos e filantropos, investigavam por puro prazer. Sem eles, o progresso teria sido muito diferente. Na segunda metade do século XIX, um jovem escocês, Robert Kidston (1852–1924), herdou uma boa quantia, o que lhe permitiu viver sem dificuldades e pagar os seus estudos de paleontologia e posterior investigação sobre a flora arcaica. Após a sua morte, a colecção de 7500 plantas e 400 desenhos que deixara foi doada à British Geological Survey (BGS), instituição dedicada ao estudo da Terra. Ali permaneceu, semi-esquecida, até que alguém se apercebeu, recentemente, que esses fósseis de 360 milhões de anos, em excelente estado de preservação, constituíam uma valiosa ferramenta para analisar as alterações climáticas e as florestas paleozóicas.

A importância do legado de Kidston é equiparável à de outros gentlemen scientists, cavalheiros abastados que se dedicaram à investigação simplesmente como hobby. A verdade é que muitos cientistas dos séculos XVII, XVIII e XIX, aos quais devemos grandes descobertas em diversos campos, puderam consagrar a vida ao estudo por descenderem de famílias nobres ou terem casado com mulheres ricas, numa época ou que não havia apoios económicos dos governos para esse fim. Quase todos pertenciam à aristocracia britânica e faziam parte, como o próprio Kidston, da Royal Society, uma associação formada em Londres, em 1660, por um grupo de homens irrequietos que se reuniam para debater filosofia, anatomia, matemática e ciência em geral.

Entre os fundadores, havia personalidades como William Brouncker ou Sir Christopher Wren, filho do diácono dos reis de Inglaterra e o arquitecto responsável pela reconstrução da Catedral de São Paulo, em Londres. Integrava também o aristocrata irlandês Robert Boyle (1627–1691), herdeiro do conde de Cork e precursor da química moderna (é conhecido pela lei de Boyle-Mariotte, sobre o volume dos gases). Aos 15 anos, decidira viajar pelo mundo; quando regressou, já com 17 anos, descobriu que tinha herdado a propriedade de Stalbridge e várias quintas na Irlanda, uma autêntica fortuna que consagrou à investigação.

Duas épocas

Os séculos XVIII e XIX foram muito distintos. No primeiro, os grandes estados europeus, guiados pelas noções do despotismo esclarecido, criaram as academias de ciências para acolher a elite da investigação; fundaram observatórios de astronomia, escolas militares, jardins botânicos, hospitais e colégios de cirurgiões e financiaram expedições científicas. O século XIX, em contrapartida, foi o tempo das revoluções burguesas e do desenvolvimento da universidade moderna, que combina ensino e investigação, como explica o historiador E. Ausejo: “O perfil maioritário deixa de ser o do rico excêntrico para se transformar no do burguês abastado com acesso a uma educação superior e, através disso, a uma profissão científica com inegáveis vantagens para a ascensão social das classes médias.”

Esta evolução não obsta a que muitos cientistas proviessem de famílias nobres ou de grandes tradições, como a de Henry Cavendish (1731–1810). O físico e químico inglês, que descobriu o hidrogénio e estudou, pela primeira vez, a massa da Terra e a força gravitacional, descendia dos duques de Kent e dos duques de Devonshire, linhagens que remontam ao tempo dos normandos. Alguns dos gentlemen scientists constituíam uma nova versão dos sábios do Renascimento, cujo raio de acção abarcava numerosas matérias. Foi o caso de Goldsworthy Gurney (1793–1875), cirurgião, químico, arquitecto, construtor e inventor responsável pelo desenvolvimento dos primeiros veículos a vapor, precursores dos actuais automóveis.

Viajar e pensar

Parece óbvio que a condição financeira deve ter ajudado muito esses investigadores aristocráticos e, embora E. Ausejo duvide de que o estereótipo de cientista milionário fosse generalizado (afirma que se trata de “casos pitorescos mas não tão frequentes; a ciência não foi uma obra de senhorios ociosos”), o facto é que a sua fortuna permitiu a alguns, como Alexander von Humboldt (1769–1859), dedicar a vida à exploração e ao estudo. Graças à avultada herança recebida da mãe, este cavalheiro prussiano pôde viajar, primeiro, até à Grã-Bretanha, para se formar, e, depois, partir à descoberta de outros continentes. Humboldt foi geógrafo e naturalista, além de especialista em etnografia, astronomia, vulcanologia, física e outras matérias.

Foi, também, um testamento que mudou a vida do geólogo e vulcanólogo escocês James Hutton (1726–1797), responsável por formular o princípio uniformista, segundo o qual os processos naturais que agiram no passado são os mesmos que operam no presente. Hutton era médico mas trocou a profissão pela agricultura quando herdou uma grande propriedade paterna. Como os trabalhos na quinta iam de vento em popa, mudou-se para Edimburgo para se dedicar a tempo inteiro ao estudo da superficie terrestre.

O laboratório em casa

Outro gentleman scientist foi Charles Darwin (1809–1882). Membro da Royal Society, nunca teve problemas económicos. Pelo contrário, provinha de uma família de médicos com um modo de vida folgado e a abastança cresceu ainda mais quando casou com a prima, Emma Wedgwood, herdeira de uma grande fortuna graças ao negócio de olaria dos pais. Isso permitiu a Darwin trabalhar toda a vida em casa e consagrar-se à investigação e à publicação das suas obras.

O autor de A Origem das Espécies partilhava muitas características com o primo, Sir Francis Galton (1822–1911), homem de múltiplos interesses que se dedicou à geografia, à meteorologia e à estatística, além de explorar os trópicos, fundar a psicologia diferencial e inventar a identificação através das impressões digitais. Galton pertencia a uma família que fez dinheiro com a banca, o aço, as armas e um ou outro casamento com mulheres ricas. Por outro lado, herdou também do passado as inquietações científicas do avô, Samuel ­John, que publicou vários livros e foi membro da Lunar Society, um clube de filósofos e intelectuais que se autodenominavam “lunáticos” e se reuniam em noites de Lua Cheia. Entre eles, encontravam-se James Watt, o matemático e engenheiro escocês que foi o artífice da máquina de vapor, e Erasmus Darwin, avô de Charles e pioneiro do evolucionismo.

A botânica foi uma das disciplinas que mais atraíram os investigadores do século XIX, como o londrino Joseph Banks (1743–1820). Rico de nascença, acompanhou Cook na sua primeira grande viagem, entre 1768 e 1771, e introduziu na Europa muitas árvores e plantas desconhecidas até à data, como o eucalipto e a acácia.

O estudo do reino vegetal desenvolveu-se igualmente em Portugal durante o Século das Luzes, quando a ciência estava nas mãos de uma minoria culta, formada por nobres, diplomatas, homens da Igreja... Durante esse perío­do fértil do século XVIII, o conde da Ericeira promoveria as Conferências Discretas e Eruditas, de onde saíram sócios para criar a Academia da Ciência (1720); o rei D. José adere ao movimento do despotismo esclarecido e apoia o marquês de Pombal na instituição do Colégio dos Nobres e na criação de gabinetes, laboratórios e museus. Já no século XIX, é criado o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, por iniciativa do conde de Ficalho e de Andrade Corvo, considerado um “moderno e útil complemento para o ensino e investigação botânicos na Escola Politécnica, símbolo dos novos rumos de progresso social e científico”.

Eclosão vegetal

Embora Francisco Manuel de Mello Breyner, o conde de Ficalho, se tivesse destacado como botânico e se enquadre no perfil de gentleman scientist, outros nomes conhecidos da botânica portuguesa talvez tivessem nomes menos sonantes ou não pudessem dispor de tantos recursos, mas a sua obra foi igualmente importante, como é o caso, entre outros, de Avelar Brotero (1744–1828), professor de botânica e agricultura na Universidade de Coimbra e autor de obras como Flora Lusitânica, na qual identificava cerca de 1800 espécies, muitas delas desconhecidas até então. Em sua honra, foi fundada a Sociedade Broteriana, agremiação científica que viria a exercer grande importância no desenvolvimento da botânica portuguesa através do seu Boletim.

Outro indiscutível cavalheiro da ciência foi o abade Correia da Serra (1750–1823), que se dedicou sobretudo à investigação nas áreas da botânica e da geologia e fundou, juntamente com o duque de Lafões, a Academia de Ciências de Lisboa. De grande prestígio intelectual, conviveu com os maiores cientistas da sua época e publicou trabalhos nas mais conceituadas revistas, tendo mesmo sido descrito pelo presidente Thomas Jefferson, dos Estados Unidos, como “o homem mais erudito que jamais conheci”. Com o prestígio e os conhecimentos que possuía no exterior, este presbítero secular e fidalgo da Casa Real ajudou o país a desenvolver a investigação e a mentalidade científicas, num esforço para Portugal não ficar completamente para trás em termos europeus.

Claro que, apesar disso, tudo era feito de modo muito mais modesto do que, por exemplo, no Reino Unido. Os meios eram incomparavelmente menores e reinava a precariedade. A “descolagem” científica apenas se verificaria mais de um século depois. Seja como for, muitos investigadores europeus dos séculos XVIII e XIX eram amadores que se dedicavam à ciên­cia por diversão, embora ganhassem a vida noutras profissões. O próprio Darwin era um jovem cientista amador quando embarcou no HMS Beagle; o primeiro microscópio composto foi inventado por Zacharias Janssen, um mercador holandês e cientista amador, e há muitos outros exemplos.

Colecções e museus

Em Portugal (como noutros países), há diversos exemplos de grandes coleccionadores cujas obras de arte e objectos reunidos ao longo da existência deram origem à criação de museus baptizados com os seus nomes: é o caso do Museu Calouste Gulbenkian ou, mais recentemente, do Museu Berardo, ambos si­tuados em Lisboa. Tanto um como outro podem ser considerados mecenas das artes.
Os belgas Paul Otlet (1868–1944) e Henri La Fontaine (1854–1943), filhos de famílias da alta burguesia, foram também grandes coleccionadores. Juntos, criaram a classificação decimal universal, método bibliográfico para ordenar e catalogar as obras nas bibliotecas, além do Mundaneum, um espaço que reuniria todo o saber em pequenas fichas interligadas. Otlet foi um visionário que antecipou a internet: “A mesa de trabalho deixará de estar cheia de livros. Em vez disso, terá um ecrã e um telefone. Um edifício imenso servirá para armazenar todos os livros e toda a informação e, através de uma chamada, será possível pedir qualquer página para se poder ver no ecrã”, escreveu. O belga imaginou “uma máquina para o trabalho intelectual, suporte de uma enciclopédia completa e colectiva que possa reflectir o pensamento humano e a materialização gráfica de todas as ciências e as artes; todos os pensadores de todas as épocas estariam a colaborar na sua criação; esse novo meio vai permitir formar um Livro Universal”. Uma obra assim acolheria o trabalho de todos os cavalheiros da ciência.

Altruístas do século XXI

Actualmente, não há muitos cientistas a trabalhar exclusivamente por amor à ciência, mas ainda resta um ou outro. De acordo com Millán Muñoz, director do Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo (CEAM), um deles é Robert Schemenauer, um meteorologista canadiano que, após trabalhar durante anos para o Governo do seu país, decidiu retirar-se para uma casa nas montanhas. Ali, desenvolveu um sistema de recolha de água do nevoeiro e neblinas com uma rede de polipropileno (semelhante ao nylon), capaz de captar e armazenar a humidade. Depois, fundou a FogQuest (http://www.fogquest.org), organização sem fins lucrativos destinada a promover projectos para abastecer de água comunidades rurais de países em vias de desenvolvimento. Algumas povoações do planalto sul-americano e de vários paí­ses africanos já dispõem de água potável graças a esta técnica.



J.M.D./I.J.
SUPER 152 

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

ESA - Rosetta

A sonda Rosetta foi lançada pelo foguete Ariane 5 G+ na base de Kourou, a 2 de Março de 2004. A sua missão é estudar o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, que viaja entre as órbitas da Terra e de Júpiter.

Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Perturbações do olfacto e do paladar

Dado que as perturbações do olfacto e do paladar raramente constituem uma ameaça à vida da pessoa, pode acontecer que não recebam a atenção médica adequada. No entanto, estas perturbações podem chegar a ser frustrantes, uma vez que afectam as faculdades da pessoa para desfrutar da comida, da bebida e dos aromas agradáveis. Também podem interferir na capacidade de nos apercebermos de substâncias químicas e de gases potencialmente nocivos, o que poderá ter consequências graves. Em todo o caso, uma perturbação que deteriore os sentidos do olfacto e do paladar pode ser grave.

O olfacto e o paladar estão estreitamente relacionados. As papilas gustativas da língua identificam o paladar, e o nervo olfactivo identifica os odores. Ambas as sensações são transmitidas ao cérebro, que combina a informação para reconhecer e apreciar os sabores. Enquanto alguns sabores podem ser reconhecidos sem que intervenha o olfacto (como o sabor salgado, o amargo, o doce e o ácido), outros sabores mais complexos (como o da framboesa, por exemplo) requerem ambos os sentidos, olfacto e paladar, para os reconhecer.

A perda ou a redução do sentido do olfacto (anosmia) é a anomalia mais frequente do olfacto e do paladar. No início, as pessoas costumam aperceber-se de uma alteração do sentido do olfacto ao sentirem que os alimentos são insípidos, dado que a distinção entre um sabor e outro se baseia em grande medida no olfacto.

O sentido do olfacto pode ser afectado por certas alterações no nariz, nos nervos que vão do nariz ao cérebro ou no próprio cérebro. Por exemplo, quando as fossas nasais estão irritadas por um resfriado comum, o sentido do olfacto pode diminuir por os odores não alcançarem os receptores do olfacto. Uma vez que o sentido do olfacto está associado ao do paladar, as pessoas constipadas costumam achar que os alimentos não sabem bem. As células encarregadas do olfacto podem ser temporariamente lesadas pelo vírus da gripe; algumas pessoas não podem nem cheirar nem saborear durante vários dias ou semanas após um episódio de gripe.

Às vezes, a perda do olfacto ou do paladar dura semanas ou chega mesmo a ser permanente. As infecções graves dos seios nasais ou a radioterapia utilizada para o cancro podem afectar as células do olfacto ou destruí-las. No entanto, o traumatismo craniano, causado frequentemente por acidentes de automóvel, constitui a causa mais frequente da perda do olfacto. Como consequência desse traumatismo, as fibras do nervo olfactivo (o nervo que contém os receptores do olfacto) são seccionadas ao nível da placa cribriforme do etmóide (o osso na base do crânio que separa o espaço intracraniano da cavidade nasal). Em ocasiões raras, uma pessoa pode nascer sem o sentido do olfacto.

O aumento da sensibilidade aos odores (hiperosmia) é muito menos frequente do que a anosmia. O sentido do olfacto distorcido, que faz com que os odores inócuos cheirem mal (disosmia), pode ser consequência de uma infecção dos seios perinasais ou de uma lesão parcial dos nervos olfactivos. A disosmia pode dever-se também a uma má higiene dentária que produz infecções na boca de odor desagradável, o qual será detectado pelo nariz. Às vezes as pessoas depressivas desenvolvem disosmia. Algumas pessoas que sofrem de epilepsia, originada na parte do cérebro que percebe os odores (o centro olfactivo), experimentam sensações de cheiros desagradáveis (alucinações olfactivas) que são muito fortes e de curta duração.  Estes cheiros desagradáveis fazem parte da epilepsia; não são uma má interpretação de um odor.

Uma redução ou perda do sentido do gosto (ageusia) costuma ser consequência de perturbações que afectam a língua. Alguns exemplos são uma boca muito seca, o tabagismo intenso (especialmente fumar cachimbo), a radioterapia da cabeça e do pescoço e os efeitos secundários de fármacos como a vincristina (um medicamento anticanceroso) ou a amitriptilina (um antidepressivo). A distorção do paladar (disgeusia) pode ser consequência dos mesmos factores que incidem na perda do paladar. As queimaduras da língua podem destruir temporariamente as papilas gustativas e a paralisia de Bell (paralisia de um lado da face causada por uma disfunção do nervo facial)  pode ocasionar a perda do sentido do gosto num lado da língua. A disgeusia também pode ser um sintoma de depressão.


Como se apreendem os sabores
O sentido do gosto e do olfacto trabalham conjuntamente para que se possa reconhecer e apreciar os sabores. O centro do olfacto e do gosto no cérebro combina a informação sensorial da língua e do nariz. Milhares de pequenas papilas gustativas cobrem grande parte da superfície da língua. Quando a comida entra na boca, estimula os receptores das papilas gustativas. Estas, por sua vez, enviam impulsos nervosos para o centro do olfacto e do gosto do cérebro, que os interpreta como sabor. As papilas gustativas na ponta da língua detectam o sabor doce, as dos lados, o salgado e o ácido, e as da parte de trás, o amargo. As combinações destes 4 sabores básicos produzem uma ampla gama de sabores. Uma área pequena na membrana mucosa que reveste o nariz (o epitélio olfactivo) contém terminações nervosas que detectam o odor (nervos olfactivos). Quando as moléculas transportadas pelo ar entram na fossa nasal, estimulam minúsculas projecções semelhantes a pestanas (cílios) nas células nervosas. Esta estimulação envia impulsos nervosos através de umas zonas volumosas que se encontram no final dos nervos (bulbos olfactivos), ao longo do nervo olfactivo, em direcção ao centro do olfacto e do gosto do cérebro. O centro interpreta estes impulsos como um odor específico. Através deste processo distinguem-se milhares de odores diferentes. O cérebro necessita tanto do sentido do gosto como do do olfacto para distinguir a maioria dos odores. Por exemplo, para distinguir o sabor de um bombom, o cérebro percebe um sabor doce através das papilas gustativas e um aroma agradável a chocolate através do nariz.  

Diagnóstico
Os médicos podem fazer provas de olfacto utilizando fragrâncias de óleos, de detergentes e de alimentos (café ou cravo, por exemplo). O gosto pode verificar-se utilizando substâncias doces (açúcar), ácidas (sumo de limão), salgadas (sal) e amargas (aspirina, quinina, aloés). O médico ou o odontologista também passam revista à boca para detectar infecções ou secura (salivação escassa). Em ocasiões concretas requerem-se estudos de imagem do cérebro através de uma tomografia axial computadorizada (TAC) ou de uma ressonância magnética (RM).

Tratamento
Em função da causa da perturbação do paladar, o médico recomendará a mudança ou a supressão de um determinado medicamento, a toma de rebuçados para manter a boca húmida ou simplesmente esperar várias semanas para ver se o problema diminui. Os suplementos de zinco, que se podem adquirir sem prescrição médica, julga-se que aceleram a recuperação, especialmente nas alterações do paladar posteriores a um episódio de gripe. No entanto, os seus efeitos não foram confirmados cientificamente.

Sábado, 21 de Abril de 2012

Borboleta do Reino Unido evoluiu com o clima


Novos dados revelam evolução genética para adaptação a mudanças decorrentes das alterações climáticas, que poderão ser, afinal, mais vastas do que se supunha
Com a cimeira do clima a decorrer em Durban, na África do Sul, os estudos sobre os efeitos das alterações climáticas ganham novo fôlego. Dois, publicados hoje, são alertas para o futuro. Um tem uma borboleta doReino Unido, a Aricia agestis, como protagonista de uma das primeiras provas de alterações genéticas numa espécie associadas às alterações climáticas.O outro sugere a possibilidade de "inundação" da atmosfera da Terra com o dióxido de carbono (CO2) contido no permafrost (solo permanentemente gelado) do hemisfério Norte, com o Árctico a aquecer rapidamente.

Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Extinção dos Dinossauros


De entre todos os modelos propostos para explicar a grande extinção do final do Cretáceo, sem dúvida a mais difundida em meios científicos e de divulgação popular baseiam-se no preceito do choque de um grande corpo celeste contra nosso planeta.


A primeira menção dessa teoria ocorreu em 1979, quando os investigadores Luís e Walter Alvarez propuseram a colisão de um objecto extraterrestre de grandes proporções para explicar a extinção dos dinossauros e de outros seres vivos há 65 milhões de anos. Baseavam-se na observação de uma concentração elevada do composto irídio (30 vezes superiores ao normal) numa camada de argila encontrada num vale em Itália, perto dos montes Apeninos, em depósitos que correspondem ao intervalo entre o final do Cretáceo e início do Terciário (conhecida como Limite K-T). O irídio é extremamente raro na Terra, mas incrivelmente comum em meteoritos e asteróides.

Segundo os especialistas, a explicação para essa anormal concentração de irídio nessas camadas só poderia ser explicada pelo choque de um imenso asteróide contra a Terra nesse período, que, coincide exactamente com o desaparecimento dos registros de dinossauros e outras formas típicas do Mesozóico. Entretanto para comprovar seu modelo era necessário que os especialistas encontrassem evidências mais directas, como uma possível cratera que não deixasse dúvidas do choque. A verdadeira prova do crime, a cratera, só foi descoberta no início dos anos 90, com base nos resultados de uma sondagem da empresa petrolífera mexicana Pemex. A cratera de Chicxulub, como foi chamada, localiza-se no Golfo do México, perto da Península de Yucatan, sendo a prova mais concreta dessa colisão colossal.

Através de estudos sistemáticos, concluiu-se que, há 65 milhões de anos, um asteróide com algo entre 10 e 12km de diâmetro caiu exactamente nesse ponto, promovendo um dos mais dramáticos cataclismos já vistos no mundo. A explosão resultante do impacto teria centenas de vezes a potência de todos os armamentos atómicos dos maiores arsenais do mundo, EUA e Rússia. As ondas de choque devem ser se espalhado por um raio de centenas de milhares de quilómetros. Organismos que se encontravam mais próximos ao epicentro do impacto devem ter sido vaporizados instantaneamente. As ondas de choque também devem ter eliminado muitas formas em seu raio de acção.

O asteróide caiu no mar, promovendo fortes abalos sísmicos e maremotos, com ondas que facilmente devem ter atingido 100m de altura, e que varreram as áreas costeiras em todo o globo. O impacto ainda lançou na atmosfera detritos (incluindo material incandescente) e rochas vaporizadas. O material incandescente deve ter promovido enormes ondas de incêndios, que se espalharam pelas florestas em todos os continentes. O impacto teria se iniciado com um inferno de calor e fogo...Mas o pior ainda estava por vir...

Os vapores e sedimentos lançados na atmosfera, auxiliados pelas fortes correntes de vento, cobriram todo o planeta com uma capa negra. Essa capa impediu a passagem da luz solar durante um longo tempo. Não se sabe ao certo quanto tempo esse efeito foi sentido. Autores admitem que pode ter durado semanas, meses ou mesmo anos. De todo modo afetaram drasticamente o clima, que sem o Sol ficou significativamente mais frio, além dos processos fotossintéticos das formas vegetais. A alteração climática, associada á decadências das principais formas vegetais alterou sistematicamente as teias alimentares. Animais como dinossauros e pterossauros, que necessitavam de grandes fluxos de energia, estiveram entre os primeiros afetados com a escassez de alimento.

Domingo, 15 de Abril de 2012

ESA - Mars Express

A Mars Express é sonda não tripulada destinada a estudar o planeta Marte. Esta foi lançada a 2 de Junho de 2003. A 19 de Setembro de 2005 a ESA decidiu prorrogar a missão por mais um ano marciano (23 meses terrestres).

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

Paralisia de Bell

A paralisia de Bell é uma anomalia do nervo facial caracterizada por causar de forma repentina debilidade ou paralisia dos músculos de um lado da cara.

O nervo facial é o nervo craniano que estimula os músculos da face. Embora se desconheça a causa da paralisia de Bell, supõe-se que no seu mecanismo participe uma inflamação do nervo facial como resposta a uma infecção viral, a uma compressão ou a uma falta de irrigação sanguínea.

Sintomas
A paralisia de Bell aparece de forma súbita. A debilidade facial pode ser precedida, algumas horas antes, por uma dor atrás da orelha. O grau de debilidade pode variar, de forma imprevisível, desde ligeira a total, mas afecta sempre só um lado da cara. O lado paralisado da face fica sem rugas e sem expressão; às vezes, a pessoa tem a sensação de ter a cara torcida. A maioria das pessoas sente um entorpecimento ou uma sensação de peso na cara, mas de facto a sensibilidade permanece normal. Quando afecta a parte superior da cara, pode ser difícil fechar o olho do lado afectado. Raramente a paralisia de Bell interfere na produção de saliva, no sentido do gosto e na formação de lágrimas.

Diagnóstico
A paralisia de Bell afecta sempre um só lado da cara; a debilidade é de início súbita e pode implicar tanto a parte superior como a inferior do lado afectado. Embora um icto (acidente vascular cerebral) possa também produzir uma debilidade súbita da cara, ele afecta somente a parte inferior. O icto é também acompanhado de debilidade no braço e na perna. 
As outras causas da paralisia do nervo facial são pouco frequentes e costumam ser de aparecimento lento. Entre elas, há a destacar os tumores cerebrais ou de outro tipo que comprimam o nervo, uma infecção viral que o destrua, como o herpes (síndroma de Ramsay Hunt), infecções no ouvido médio ou nos seios mastóideos , a doença de Lyme, as fracturas do osso da base do crânio e muitas outras doenças, ainda menos frequentes.

Habitualmente, o médico pode afastar estas perturbações baseando-se na história clínica da pessoa e nos resultados dos exames radiológicos, na tomografia axial computadorizada (TAC) ou na ressonância magnética (RM). Para a doença de Lyme pode ser necessária uma análise de sangue. Não existem provas específicas para o diagnóstico da paralisia de Bell.


Tratamento
Também não existe um tratamento específico para a paralisia de Bell. Alguns médicos consideram que deverão administrar-se corticosteróides, como a prednisona, antes do segundo dia posterior ao aparecimento dos sintomas e continuar durante uma a duas semanas. Não foi demonstrado que este tratamento seja eficaz no controlo da dor ou que melhore as possibilidades de recuperação.

Se a paralisia dos músculos faciais impedir que o olho se feche completamente, deve evitar-se que este seque. Para isso recomenda-se a aplicação de gotas lubrificantes para os olhos com poucas horas de intervalo e, se for necessário, uma venda ocular. Nas pessoas afectadas de paralisia grave podem ser eficazes as massagens dos músculos debilitados, tal como a estimulação nervosa, para prevenir a rigidez destes músculos. Se a paralisia durar entre 6 e 12 meses ou mais, o cirurgião pode tentar ligar um nervo são (habitualmente retirado da língua) com o músculo facial paralisado.

Prognóstico
Se a paralisia for parcial, é provável que se verifique um restabelecimento completo no prazo de um ou dois meses. Se a paralisia for total, o prognóstico é variável, embora a maioria recupere completamente. Para determinar as probabilidades de recuperação, o médico pode examinar o nervo facial através da sua estimulação eléctrica. Por vezes, à medida que o nervo facial recupera, formam-se conexões anormais que podem provocar movimentos inesperados de alguns músculos faciais ou uma secreção espontânea de lágrimas.

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Mulheres que comem mais peixe sofrem menos do coração

Os riscos de desenvolvimento de problemas cardíacos são mais raros entre as mulheres em idade fértil que consomem regularmente peixes ricos em ómega 3, revela um estudo dinamarquês.

Trata-se da primeira investigação que se debruça sobre mulheres entre os 15 e os 49 anos e os benefícios do consumo de peixe na sua saúde cardíaca.
Segundo o estudo, publicado na segunda-feira na revista da Associação Norte-Americana do Coração, as mulheres que consomem pouco ou raramente peixe têm mais de 50 por cento de problemas cardiovasculares face às que consomem peixe regularmente.
De uma maneira geral, as mulheres que consomem pouco ou nada de peixe têm um risco de problemas cardíacos superior a 90 por cento comparativamente com as que comem peixe semanalmente.
O estudo, citado pela agência AFP, abrangeu, durante oito anos, perto de 49 mil mulheres com uma idade média de 30 anos.
A maior parte das inquiridas que consumiam peixe regularmente disse que comia salmão, bacalhau fresco, arenque e cavala, ricos em ómega 3, um ácido gordo polinsaturado ao qual são atribuídas propriedades benéficas para o coração.

Sábado, 7 de Abril de 2012

A serra dos mortos - Megalitismo na Aboboreira

As grandes pedras que serviram para honrar os defuntos no passado remoto permitem-nos hoje conhecer melhor o homem pré-histórico. O Campo Arqueológico da Serra da Aboboreira é uma das maiores necrópoles megalíticas do país e fala-nos sobre a sociedade dos seus construtores.

Perdida entre as vertentes agrestes do Marão e os vales dos rios Tâmega e Douro encontra-se a serra da Aboboreira. Com as suas modestas dimensões, que não vão além de 15 quilómetros de extensão, cerca de 7 km de largura e apenas 971 metros de altitude, está longe de rivalizar com as grandes serras que caracterizam o relevo montanhoso do Norte de Portugal.

Não se destacando pelo tamanho ou tão pouco pela sua riqueza e diversidade naturais, que são todavia dignas de registo, este acanhado terreno acidentado, perdido nos confins do distrito do Porto, ganhou notoriedade pelo seu magnífico património arqueológico: uma extensa necrópole megalítica, das maiores que se conhecem em Portugal. São mais de quarenta túmulos (onde se incluem mamoas, antas e dólmenes), identificados, intervencionados e estudados desde 1978.

O Campo Arqueológico da Serra da Aboboreira (CASA), projecto de investigação, divulgação e valorização do património arqueológico, herdou o seu nome do maciço granítico onde se iniciaram os trabalhos de prospecção, mas, na verdade, estende-se actualmente por uma vasta área que extravasa os limites físicos da Aboboreira e se espalha pelas cumeadas da região até à contígua serra do Castelo. Este, que é um dos mais interessantes arqueosítios portugueses e peninsulares, possui uma invejável colecção de monumentos megalíticos funerários de diferentes épocas, desde o Neolítico (cerca de 4500 a.C.) até à Idade do Bronze (por volta de 1900 a.C.).

De modo a assegurar a adequada compreen­são dos diferentes tipos de monumentos funerários e a sua evolução ao longo dos tempos, o Núcleo de Arqueologia do Museu Municipal de Baião expõe algum do espólio recolhido nas inúmeras campanhas de escavação arqueo­lógica e exibe uma maqueta didáctica, onde 120 figurinhas humanas ilustram as diferentes fases de construção de uma anta (câmara funerária delimitada por uma série de grandes pedras fincadas verticalmente no solo e coberta por uma laje que serve de tampa) e da respectiva mamoa (montículo artificial de terra e/ou pedras que oculta a anta). Uma vez que as mamoas formam geralmente pequenas elevações com a sugestiva forma de mamilo, são também conhecidas popularmente como “mamoelas”, “mamoinhas”, “mamelas”, “mamorras” e “maminhas”.

Construtores habilidosos

Percorrendo a maqueta, os visitantes menos letrados em investigação arqueológica e nos assuntos da pré-história podem inteirar-se das técnicas usadas pelo homem da Idade da Pedra. Torna-se assim mais fácil perceber como foi possível que apenas com a força humana se conseguisse fazer a extracção, o talhe e o transporte de descomunais blocos graníticos, alguns com várias toneladas, utilizados na construção dos megálitos (assim denominados por serem construções com pedras de grandes dimensões).

Acredita-se que as chãs planálticas (amplas superfícies aplanadas) da serra da Aboboreira, actualmente inóspitas e despidas de gente, tenham servido de lar, nos tempos pré-históricos, a um número médio de 140 habitantes por geração. A estimativa, da autoria da arqueó­lo­ga Carla Stockler, resultou da aplicação de fórmulas que permitiram calcular a quantidade de indivíduos implicados na construção de cada um dos quarenta monumentos megalíticos disseminados pela região ao longo de sucessivas gerações. Os seus cálculos apontam para que tenham vivido nesta área geográfica, durante dois milénios, aproximadamente 11.200 indivíduos. Durante esse período, a que terão correspondido cerca de oitenta gerações, construiu-se aqui, a um ritmo impressionante de um monumento por cada duas gerações, uma das maiores e mais importantes necrópoles megalíticas do país.

Todavia, o número de pessoas envolvidas em tais construções tumulares ainda está longe de ser consensual entre os especialistas, que baseiam os seus cálculos e as suas inferências em diferentes índices. A título de exemplo, refira-se, relativamente ao número mínimo de horas de trabalho necessárias para a edificação de um tumulus (designação que corresponde à mamoa), que alguns investigadores usam o índice de 0,3 metros cúbicos de construção por homem e por hora, enquanto outros sugerem 1,67 m3, o que implica forçosamente discrepâncias acentuadas entre os diversos arqueólogos.

Nos megálitos de maiores dimensões, acredita-se que terá sido necessário um esforço coordenado e simultâneo de muitas dezenas de pessoas para transportar e erguer os enormes blocos graníticos que lhes dão forma. No entanto, os arqueólogos também não se entendem no que se refere às pessoas necessárias para deslocar as grandes pedras erguidas em honra dos mortos. Neste caso, as diferenças de opinião parecem advir das técnicas distintas que poderão ter sido usadas pelos edificadores dos monumentos, o que obviamente tem implicações na avaliação do esforço construtivo.

Desde logo, podem antever-se três cenários possíveis para o deslocamento das pedras gigantes: poderão ter sido arrastadas directamente sobre o solo, puxadas sobre “rolos” (troncos) de madeira ou transportadas através de alavancas. No arrasto sem “rolos”, estima-se que seriam necessários 16 homens por cada tonelada de pedra. Se o transporte se fizesse sobre rolos de madeira, esse valor já desceria para apenas seis homens por tonelada. E, se fossem usadas alavancas, alguns estudos provaram que seria possível mover as grandes pedras com apenas duas pessoas por tonelada.

Não havendo certezas absolutas sobre as técnicas usadas na construção dos vários monumentos, vale a pena confrontar os estudos do arqueólogo Vítor Oliveira Jorge (pioneiro na arqueologia social dos sepulcros da serra da Aboboreira), onde as alavancas não foram consideradas, com os do arqueólogo Joel Cleto, do CASA, defensor do uso de alavancas pelos construtores de alguns daqueles megálitos. Considerando o transporte de um esteio (bloco granítico que serve para escorar a enorme pedra de cobertura de uma anta) com 6,24 toneladas, pertencente ao monumento Outeiro de Ante 1, verifica-se que teriam sido necessários cem homens para o arrastar sem rolos de madeira, 36 com o auxílio de “rolos” e apenas 13 se fossem usadas alavancas. Assim, Oliveira Jorge estimou que aos cem homens adultos necessários para o arrastamento do esteio corresponderia uma população global de 450 pessoas, e aos 36 adultos que usavam os “rolos” uma população de 162 indivíduos. Joel Cleto, por seu lado, considera que 56 habitantes seriam suficientes para obter 13 construtores com perícia suficiente para usar as alavancas.

Muito provavelmente, nunca saberemos com absoluta certeza qual a técnica de construção que foi utilizada, havendo até uma grande probabilidade de que tenham sido usadas várias em simultâneo. Contudo, não deixa de ser curiosa a possibilidade de terem sido usadas alavancas. A ser assim, muito antes de Arquimedes (287–212 a.C.) ter enunciado o princípio da alavanca (através da famosa expressão que lhe é atribuída: “dai-me uma alavanca e um ponto de apoio adequado e eu moverei a Terra”), já o homem pré-histórico, sem o saber, aplicava o seu postulado. Afinal, “a habilidade e a inteligência, mais do que a força por si só, terão sido factores fundamentais para mover grandes pesos”, considera Joel Cleto.

O passado remoto “antes da História”, do qual nos chegam apenas alguns indícios soltos que frequentemente não passam de arabescos, continua ofuscado pelo nevoeiro do tempo, apesar dos avanços tecnológicos a que temos assistido nas últimas décadas. No entanto, divergências à parte, todos os arqueólogos partilham a mesma certeza de que estes estudos são muito importantes porque contribuem para uma aproximação hipotética à demografia e à sociedade dos construtores dos megálitos.

Ocupação pré-histórica

É quase certo que nessas épocas remotas o clima era mais ameno e que as chãs da Aboboreira, localizadas a cerca de mil metros de altitude, tivessem condições propícias ao maneio agrícola (considerado um aspecto crucial para a coesão social e para a entreajuda na construção dos megálitos funerários), à exploração dos recursos cinegéticos e à pastorícia. Só assim se compreende a ocupação pré-histórica da serra, cujos primeiros indícios datam de há aproximadamente 7000 anos.

Alguns estudos de paleobotânica (análise de carvões vegetais, frutos, sementes, grãos e pólen) permitiram ainda confirmar que a melhoria climática que se verificou com o fim da última glaciação, há cerca de dez mil anos, poderá ter contribuindo para uma crescente arborização das partes mais altas da serra. Assim, espécies que na actualidade se encontram acantonadas abaixo dos 700 metros (carvalho alvarinho, castanheiro, vidoeiro e aveleira, entre outras) seriam aí relativamente abundantes, fornecendo alimento e lenha e contribuindo para enriquecer a biodiversidade local.

Os vestígios habitacionais das populações que começaram a fixar-se na Aboboreira por volta do quinto milénio a.C. são muito escassos, deixando adivinhar povoados limitados, sem preocupações de defesa, instalados em terrenos húmidos e, a avaliar pelas numerosas partículas de carvão vegetal encontradas sob o solo de algumas mamoas, que utilizariam o fogo para possivelmente abrir clareiras na densa floresta. Embora pouco se saiba do modo como viveram esses povos primitivos, conhece-se relativamente bem a forma como adoraram os seus mortos. Geração após geração, os monumentos funerários foram-se amontoando, tendo sempre como referência as construções megalíticas que os precederam. A proximidade entre as sucessivas inumações parece denotar um grande significado simbólico e ritual atri­buí­do a alguns lugares.

Arquitectura funerária

Por volta do quinto milénio, começaram a construir monumentos sepulcrais de câmaras pequenas e cobertas por montículos de terra (mamoas) de reduzidas dimensões: inferiores a um metro de altura e com menos de dez metros de diâmetro. No decurso do quarto milénio, as tumbas atingiram uma maior monumentalização e destaque na paisagem, com dimensões que ascendiam a 1,5 m de altura e a mais de 15 m de diâmetro. Neste período áureo do megalitismo na serra da Aboboreira, em que foram erguidos os grandes dólmenes, como Chã de Parada (monumento nacional) e Chã do Outeiro de Ante, os sepulcros tornaram-se verdadeiramente colectivos, deixando antever um maior número de indivíduos enterrados e permitindo um enterramento e um ritual mais prolongado no tempo. Os despojos encontrados nesses dólmenes são relativamente escassos e pobres, resumindo-se a micrólitos geométricos, pontas de seta de base triangular e com aletas, de sílex e quartzo hialino, lâminas e lamelas, contas de colar em xisto e variscite e raros fragmentos de vasos lisos. Os objectos votivos, construídos com intentos exclusivamente funerários, resumem-se a enxós, seixos rolados e machados.

Na Idade do Bronze, ter-se-ão reutilizado os antigos sepulcros e ter-se-á edificado, por volta de 2400 a.C., a mamoa de Chã de Carvalhal. Esta correspondeu a uma viragem no ritual funerário, que passou a fazer-se de modo individual. O defunto fazia-se acompanhar de armas em cobre (punhais e pontas de lança de tipo Palmela) e vasos cerâmicos. Seguindo esta tipologia de construção, contrária à visibilidade e monumentalidade que caracterizaram as mamoas megalíticas de épocas anteriores, regista-se ainda, mais recentemente (cerca de 1400 a.C.), a edificação do monumento de Outeiro de Gregos.

No limiar da Idade do Bronze, assiste-se a uma hierarquização e uma diferenciação social, que se evidencia nas próprias tumulações. Como lembra a arqueóloga Carla Stockler, “a partir de agora, são introduzidos no espólio funerário produtos de prestígio, como a cerâmica campaniforme e as armas metálicas, objectos mais individualizadores de uma primeira elite, cuja importância era publicamente manifesta pela posse e uso destes produtos, difíceis de obter ou dispendiosos”.

Janelas para o passado

Aquilo que para o homem comum não passa de um monte de pedras, apelidadas usualmente de antas, dólmenes ou antelas, mas que o folclore nacional também conhece como “arcas”, “arquinhas”, “palas”, “orcas”, “mamoas”, “mamoncelos” ou “pedras dos mouros”, revela-se aos olhos experimentados dos arqueólogos como magníficas janelas para o passado. Se durante décadas esses blocos de pedra pouco ou nada trabalhadas apenas revelavam segredos sobre o culto dos mortos, desde há alguns anos que se têm mostrado igualmente úteis na compreensão do mundo dos vivos, nomeadamente da vida social pré-histórica.

Embora o dia-a-dia dessas sociedades primitivas fosse muito diferente do que acontece actualmente nas sociedades modernas do século XXI, é fascinante pensar que as pessoas (os construtores habilidosos dos monumentos megalíticos) eram anatomicamente iguais a nós. Se fosse possível pegar numa das suas crianças recém-nascidas e criá-la na nossa casa, ela seria indistinguível dos nossos filhos. Por incrível que pareça, falaria como nós, viveria agarrada ao telemóvel e à internet, usaria com mestria as novas tecnologias da informação e comunicação, viajaria de avião e sonharia ser médico, cientista ou futebolista. É que, no Neolítico, quando começaram a construir-se os monumentos megalíticos na Aboboreira, já o Homo sapiens sapiens tinha desenvolvido todas as características que nos fazem o que somos hoje. Os milénios que nos separam não acrescentaram nada de novo à nossa anatomia ou fisiologia, tendo servido apenas para consideráveis avanços culturais, tecnológicos e científicos.

No planalto da Aboboreira, as antas, os dólmenes e as mamoas confundem-se com o caos de blocos e com os afloramentos naturais da paisagem granítica. Não se sabe bem se terá sido esse cenário oferecido aos olhos contemplativos do homem primitivo que o inspirou a ritualizar a paisagem e a implantar aqui os seus monumentos funerários. Mas uma coisa é certa, as nossas raízes mais distantes parecem revelar-se em lugares mágicos como a Aboboreira, uma verdadeira serra dos mortos.

J.N.
SUPER 152 

Mensagens populares